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Síndico em SP reduziu 60 sacos de lixo em 7

Não, ele não é mágico. Roberto Cardinalli é síndico profissional. Mas a chave para a mudança foi a experiência doméstica. Começou administrando seu próprio prédio, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, há exatamente um ano.

Agora, cuida de três edifícios, todos na sua rua. E já tem convite para assumir outros oito. “Planejo pegar mais dois. Estão me convidando para dar cursos também, mas tem que ser uma coisa de cada vez, senão vou enlouquecer”, diz ele, dando uma risadinha nervosa. 

A explicação para tanto sucesso é simples – mas a fórmula dá trabalho. Roberto botou em prática em seu edifício um plano para diminuir ao máximo o lixo final. Instalou um eficiente sistema de compostagem e conciliou a separação de recicláveis com uma rotina diária de coleta que envolve a prefeitura, uma ONG e catadores avulsos. 

Em momentos de pico da pandemia como o atual, com todo mundo dentro de casa, o número de sacos de lixo enviados para o aterro sanitário cai de 120 para 15, garante ele. “Mas quero voltar ao recorde de 7”, diz, determinado.

O prédio é relativamente novo, de 2017, e foi naquele mesmo ano que o administrador de empresas realizou o sonho de pegar as chaves de sua primeira casa própria. “Pensei assim: levei quase 40 anos pra ter meu apartamento, quero que seja legal. Então, vou me envolver”, conta ele.

Roberto não estava nem perto de ser um ativista ecológico quando resolveu assumir a administração de seu edifício. Foi por pura necessidade e bom senso que deu a guinada sustentável no condomínio de 300 apartamentos, divididos em duas torres.

De cara, ele quase caiu para trás quando percebeu que, por mês, o gasto com sacos de lixo era de R$ 1 mil. “Não basta destruir o planeta, a gente ainda gasta horrores com isso. Você pode imaginar quantos reparos consigo fazer ao longo de um ano com R$ 12 mil?”, pergunta ele.

Enquanto a pandemia mostrava suas garras e o restaurante que administrava junto com a mãe, em Perdizes, entrava em crise, Roberto mergulhava cada vez mais nas demandas do prédio. 

Nos primeiros meses, renegociou contratos com fornecedores e consumiu horas e horas em conversas com todos os condôminos inadimplentes, diminuindo de R$ 90 mil para R$ 4 mil as dívidas. Em pouco tempo, conseguiu juntar R$ 80 mil no caixa, antes zerado.

Aí vieram desafios sucessivos: primeiro, mostrar que seu plano para o lixo poderia fazer diferença imediata nas contas.

Fez isso em assembleia e, quando necessário, até batendo de porta em porta. Mas logo Roberto percebeu que o prédio não tinha estrutura para realizar o processo da maneira ideal. 

A pequena sala que recebia os recicláveis virou um amontoado, e ele precisava que duas funcionárias dedicassem quatro horas por dia para botar ordem no material.

Então, foi necessário voltar aos vizinhos para convencê-los de que parte do dinheiro em caixa devia ser usado em obras para adaptar o espaço e comprar material.

“Foi tenso. Eu tinha que correr contra o tempo para não botar tudo a perder. Consegui arrumar a nova sala em uma semana, com azulejos, ralo, espaço para cestas enormes de lixo orgânico ou reciclável, a composteira, além de papa-pilha e local adequado para descarte de óleo”, enumera ele.

A transformação foi imediata, e teve impacto direto na disposição dos moradores em colaborar com a causa. Mas, claro, a mudança coletiva de hábitos numa comunidade de 800 pessoas não acontece de uma hora para a outra.

O trabalho de formiguinha é constante. E chatíssimo. “Sempre tem aquela maldita cenourinha presa na embalagem do delivery. Ou mesmo gente que não quer reciclar nada. Mas vejo que a maioria vai na onda, porque hoje quem não separa direito sabe que vai passar vergonha”, observa Roberto. Apesar das dificuldades, ele diz que nunca precisou chegar ao ponto de multar vizinhos mais teimosos.

E, aos poucos, ganhou aliados. Agora vários moradores ajudam na “fiscalização” do lixo. “No começo é resistência, mas depois vira hábito”, resume Elaine Almeida, que mora no prédio desde 2018. “Hoje estou muito mais atenta às minhas compras, às embalagens de plástico que posso evitar.”

“Querido, a minhoca não come isso!”

A educação para a composteira é um capítulo à parte, e fundamental. “Se você não gerenciar diariamente e deixar entrar coisa errada, o PH pode mudar, e aí fede demais, cria bicho”, conta ele. E no começo, mesmo sem maldade, as pessoas jogavam de tudo. “Era um tal de aparecer casca de fruta dentro de saco plástico, ou cápsula de café… Eu vivia avisando no grupo de WhatsApp do condomínio: ‘Querido, a minhoca não come isso!’.”

É um trabalho árduo, mas rende frutos. Literalmente, inclusive. Além de deixar de gastar com terra, adubo e fertilizante para os muitos jardins do prédio, Roberto passou a ver tomate, abóbora e até melancia nascerem no meio das plantas. “Era tudo semente na composteira”, conta, orgulhoso. “E pensar que isso tudo ia para o lixo!”

E os planos não param. Quando assumiu o prédio, decidiu que implementaria um bicicletário “decente”. “O edifício era novo, mas a área destinada às bicicletas era uma piada, um espaço aberto, sem nada”, lamenta.

Uma obra e 150 ganchos depois, foram tantos moradores comprando bicicleta que eles já estão todos ocupados. Graças ao “problema”, Roberto já bolou seu próximo projeto: um sistema de compartilhamento de bikes.

“Agora as pessoas vão poder usar o site do condomínio para alugar uma bicicleta para ir ao trabalho. Não é um espaço só para reservar churrasqueira e salão de festas”, diz ele.

A experiência bem-sucedida fez Roberto ficar mais tranquilo para mudar de vez seu foco profissional. Fechou as portas do restaurante de comida mineira e baiana. Agora, apresenta-se como um especialista em reestruturação de condomínios. “As pessoas têm a mania de se acostumar com o que não é bom. Acho que consigo fazer elas perceberem que dá para cuidar e gostar mais do lugar que elas escolheram para morar.”

O que você pode fazer para ter um condomínio mais sustentável

É inevitável engajar os moradores na causa. Sem aprovação em assembleia, você poderá dar poucos passos. 

Explicite que parte do caixa será usado, pelo menos no começo, para preparar o condomínio para as ações: compra de composteiras e de caçambas para lixo, por exemplo.

Seja vigilante. Por mais bem-intencionados que sejam os vizinhos, possivelmente eles vão errar no começo ao separar o lixo reciclável e os restos de comida. Você vai precisar acompanhar a rotina da composteira de perto, sob o risco de botar o plano a perder.

Para não enlouquecer, conclame moradores e funcionários mais engajados para ajudar a controlar composteiras e recicláveis. 

Estimule os funcionários. Permita, por exemplo, que separem latinhas para reciclagem se quiserem.

Se for necessário, a depender da quantidade de moradores e de lixo gerado, conte com mais de um parceiro de coleta. Dependendo da cidade, prefeituras e ONGs não costumam passar mais de uma vez por semana. Pode ser necessário recorrer a catadores independentes também.

E o mais importante: tente criar um clima de comunidade no seu prédio. Estimule trocas e doações, ainda mais em tempos de pandemia.

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